delírios em palavras



terça-feira, 16 de março de 2010

solidão abstrata

As pessoas seguem suas vidas, passam o sinal, sincronizam o tempo. Ninguém percebe nada, ninguém pensa em olhar pros dois lados e enxergar o óbvio. Quem repararia no óbvio quando se tenta ir tão além. Não se chega nem no longe, nem no perto, apenas se vai. Os muros da cidade falam alto, tão alto que não os escutam. Palavras doloridas e insuportáveis que ele não queria ouvir. Ele cansou da violência que ninguém mais via, cansou de sentir o que ninguém nem se quer fingia entender. Ele quis voltar para casa, ficar no seu mundo e esquecer tudo o que um dia poderia ter sido diferente, tudo o que é impossível de mudar. Ele viajou nos seus pensamentos, se impressionou com a capacidade de todos mentirem a mesma mentira e sentirem a mesma indiferença sobre tudo. Ele observou os quadros na parede e descobriu milhares de formas de interpretá-los, observou milhares de fotos e achou todas iguais. Relembrou as vozes, que ou caladas ou repetindo as mesmas frases. Eu ofereci um lugar pra ficar e ele me olhou como se sempre soubesse que eu era de outro mundo, distante demais do que onde ele estava. Então sorriu e traduziu sua esperança diante da vida, com a força de quem sabe que a hora certa vai chegar. Lágrimas no sorriso, 4 paredes, segredos que ele não podia suportar, mas não conseguia contar. Continuou andando pelas mesmas ruas, porém acompanhado. A cidade crescia e tudo ficava cada vez menor, me espantava que as pessoas queriam ir embora de tudo o que elas próprias construíram. Todas iguais e tão desiguais, umas mais que as outras. Com toda essa hiprocrisia, ele me pediu pra ir em frente e não largar os meus princípios, mas não me avisou que ele iria ficar pra trás. Então fui sozinha e entendi que a vida não é um jogo de palavras cruzadas onde tudo se encaixa o tempo todo. O que será que ele quis dizer com tantas palavras mudas? Ele foi embora, mas sabia que no dia seguinte iria voltar. Enquanto isso fui indo, entendendo os objetivos do jogo, procurando as razões da vida, encontrando diferenças em tudo o que via. Cheguei até a pensar que fosse liberdade. Engano meu, solidão.

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